Desde que iniciei meu projeto, sempre tive vontade de entrevistar um idoso para analisar seu comportamento de consumo. Considero o respeito e o contato com os mais velhos muito importante, pois nos permite ter uma visão mais consciente e esclarecida do mundo. Justamente por serem mais vividos, eles têm opiniões sólidas, apesar de saudosistas. Digo isso porque muitos costumam dizer que, no passado, as pessoas agiam muito mais pelo próximo, e não por seu próprio interesse. Porém, mesmo saudosista, esta eterna comparação que eles fazem entre a sociedade atual e a de antigamente me intriga por fazer realmente sentido, já que os idosos de hoje viveram o período anterior à Segunda Guerra Mundial, quando o capitalismo ainda não havia iniciado sua história desbravadora do mundo ocidental.
É engraçado como há coisas que parecem acontecer por acaso. Simplesmente parecem, pois na realidade, elas têm algum motivo para acontecer, mas que nos permanece misterioso. Antes mesmo de eu iniciar os meus encontros, conheci a entrevistada de hoje de forma ocasional, quando estava no período de concluir o artigo científico que embasa este projeto. Eu estava chegando à faculdade, encalorado pela pressa e angustiado pelo prazo de entrega do projeto, quando me deparei com uma reunião de pessoas no pátio, próximas à Igreja da Paz. Entre elas, havia uma senhora muito serena que me chamou a atenção, sentada um pouco distante da maioria. Sabe quando você tem um pensamento momentâneo que o leva a agir imediatamente? Meu pensamento me dizia para conversar com aquela ela. E foi o que fiz.
Rosália Drefahl, 70 anos, é uma doce senhora, mãe de sete filhos, que se disponibilizou prontamente em me ajudar na minha pesquisa. Na ocasião em que a conheci, ela aguardava pelo início distribuição de cestas básicas pela Secretaria de Diaconia e Assistência Social da Igreja Luterana, serviço sob responsabilidade da OASE – Ordem Auxiliadora das Senhoras Evangélicas. Ela me contou que, mensalmente, se desloca até ali com seu carrinho de compras para participar de uma espécie de ritual espiritual que, em seguida, era encerrado com a distribuição dos mantimentos. Nem precisei sugerir de acompanhá-la no seu compromisso, ela já me convidou a participar ali mesmo, faltando poucos minutos para o início. Rapidamente, apanhei uma câmera fotográfica e um gravador de áudio para registrar, entusiasmado, a primeira entrevista do meu projeto.
Dona Rosália (vou chamá-la assim, com este típico pronome de tratamento, porque me parece desrespeitoso não fazê-lo – mesmo que este projeto não diferencie as pessoas) tem 70 anos de idade e vive nos fundos da cada de um de seus filhos no bairro Boa Vista, em Joinville. Logo no início da conversa, ela revela o desaparecimento de um deles, há 22 anos, como a causa de sua infelicidade. Foi este fato que, basicamente, norteou a nossa conversa. Não por eu ter feito dele o assunto central, mas porque aquela senhora parecia sofrer muito por seu filho desaparecido e, por isso, sentia a necessidade de expressar sua dor a quem quer que fosse – até mesmo a mim, um estranho até então. Quando questionada sobre a busca pelo seu filho, ela responde: “Já fiz de tudo, mas nada adiantou. Eu só choro de saudade todos os dias. De manhã, antes do café, eu dobro meus joelhos e começo a orar em jejum, pedindo a Deus pela volta do meu filho. Quando a dor é demais e me dói a raiz do coração, eu me jogo na cama e choro como uma criança. Aí levanto de novo, continuo a orar e chorar. Eu peço: Senhor, eu boto meu filho em Tuas mãos, pois Tu sabes o que faz. Se ele casou e constituiu uma família, que o abençoe e seja feliz. Se ele está preso, liberte-o. Se ele está caído na rua, levante-o. Se ele já partiu deste mundo pra outro, dê a ele o descanso eterno. Mas revela onde está meu filho, Senhor, que eu não quero morrer sem ter notícias dele.”
Eu costumo valorizar muito a história das pessoas e fiz questão de ouvir tudo o que Dona Rosália tinha a me falar. Quis deixá-la a vontade para me contar sua história de vida marcada por constantes perdas e pela luta contínua pela sobrevivência. Essa luta começou há 43 anos, quando perdeu seu marido em um trágico incêndio na casa do seu pai, sogro de Rosália. Naquele momento, o seu filho mais novo ainda não havia nem nascido e o mais velho tinha apenas 10 anos de idade. Desamparada, ela colocou os filhos sob os cuidados de um asilo e foi trabalhar como diarista para sustentar a família. Essa foi sua primeira perda. “Eu passava chorando pelo asilo quando ia trabalhar. Eu nunca os abandonei.” Os filhos cresceram longe de sua presença, vivendo distantes da mãe, que só os tinha por perto aos finais de semana. “Eu tive que arregaçar as mangas pra criar meus filhos. Eu me virava, não deixava meus filhos passarem fome”. Apesar de tudo, eles não reconheceram seu sacrifício e se revoltaram por terem sido supostamente abandonados pela própria mãe. “Eu tinha que trabalhar. Eu até estudei, fiz o Mobral aos 33 anos para poder criá-los melhor”. Hoje, felizmente esta realidade mudou, mas na época, um deles sentia-se tão desamparado a ponto de maltratar Dona Rosália. Denunciado à polícia por um dos irmãos, ele fugiu e nunca mais voltou. Sem ressentimentos, esta senhora espera por este filho até hoje, há 22 anos.
Mais perdas. Outros dois de seus filhos faleceram aos 34 e 44 anos de idade, respectivamente. Com os filhos já criados e crescidos, Dona Rosália aposentou-se por invalidez aos 49 anos, devido à bronquite asmática. Ainda assim, trabalhava aqui e ali para, agora, sustentar a si mesma, já que, segundo ela, os filhos também não tinham condições de ajudá-la. Toda essa história poderia ter sido diferente se um fato não tivesse acontecido: com a morte do marido, a família dele ficou com toda a indenização e os bens, deixando Dona Rosália somente com um salário mínimo mensal de pensão. Todo o dinheiro e as terras de direito de Dona Rosália e de seus filhos foram roubados por um de seus cunhados. Ao falar sobre isso, ela se sente envergonhada por possuir mágoa da família de seu marido.
Ela relatou este ocorrido quando lhe perguntei sobre a diferença entre a sociedade em que ela vivia quando seu marido ainda era vivo e a de hoje. “Sinto saudades daquele tempo”. A primeira coisa que ela cita é que atualmente as pessoas dão muito mais valor ao trabalho do que à família, e que só pensam em si mesmas. Esta situação me fez pensar imediatamente na submissão dos indivíduos ao sistema capitalista, que os induz a certas atitudes que transcendem seus valores, muitas vezes de forma inconsciente. Eu mesmo sou um exemplo disso. Apesar de não concordar com a quantidade absurda de automóveis em nossa cidade, provocada pelo aumento do poder de compra da população e pela facilidade de acesso ao consumo, não dispenso uma carona ao trabalho e à faculdade quando preciso. Porém, isto não chega a afetar meus valores éticos e morais.
No caso do fato cometido contra Dona Rosália, a situação vai um pouco mais além. O indivíduo estava claramente consciente de seus atos, mas seduzido pela oferta de dinheiro e bens de consumo, passou por cima de seus valores (se é que podemos dizer que uma pessoa com tal atitude ainda possui valores) para seu próprio prazer, sem levar em conta as consequências para o próximo, nem a injustiça que estava cometendo. Puro individualismo.
Isto está ligado à forma com que o capitalismo se prende aos indivíduos e retira deles toda a sua força, até que não reste mais nada. É a teoria do parasita de que Zygmunt Bauman fala em Capitalismo parasitário (Zahar, 2010). Aqui, o sociólogo compara o capitalismo a uma espécie de organismo parasitário que, como o próprio nome indica, se instala em determinado ambiente e suga todas as energias possíveis pelo tempo que suportar o seu hospedeiro e, com isso, removendo toda a sua energia potencial e destruindo-o. Nas palavras, de Bauman, “sem meias palavras, o capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento. Mas não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua sobrevivência”.
Hoje, Dona Rosália não sofre mais de parasitismo, e se mostra livre de quaisquer dificuldades maiores. Todo este emaranhado de acontecimentos nos leva a pensar se Dona Rosália é realmente feliz. Durante toda a sua vida, ela teve que se submeter aos outros, já que o que era seu por direito foi retirado de forma cruel e covarde. “Para mim, felicidade é ter os filhos sadios. Eles não são deficientes, não estão presos, não estão nas drogas. Sou feliz pelos meus filhos e pelos meus netos!” Com a morte precoce de seu marido, a necessidade de tomar as rédeas da situação desconfigurou sua família. “Eu sinto falta da família reunida à mesa. Faz muito tempo que eu não sei o que é comer com a família reunida.” Depois, a dor aumentou com o desaparecimento de seu filho. “Eu não sou feliz porque sinto falta do meu filho. Mas espiritualmente eu sou feliz. Sou feliz porque li a Bíblia de ponta a ponta”. Apesar de tudo, ela realmente demonstra ser uma pessoa feliz.

























